Rev. Tarcísio

COMO A REFORMA MUDOU A IGREJA, E O QUE EU TENHO A VER COM ISSO

Deus criou todas as coisas que existem no espaço de seis dias dele. No sexto dia dele ele criou também o ser humano, um homem e uma mulher. Daquele dia em diante, Deus nunca deixou de se relacionar com a sua criação. Com as pessoas que criara de modo especial, ele falava. Havia comunicação acerca daquilo que precisamos conhecer dele, sobre o que ele espera que façamos em seu mundo, e sobre o que ele espera que façamos uns com os outros.

O problema é que Adão e Eva desobedeceram a Deus e perderam aquele privilégio de uma boa conversa com ele ao fim do dia. Agora, até saber qual voz deveria ser ouvida ficou mais complicado. Há um barulho que mistura a minha voz, a voz do tentador, e as vozes das outras pessoas. Sabemos que quando Deus fala, a sua voz é reconhecida pelos seus filhos. Entretanto, depois da desobediência de Adão e Eva, que acreditaram que a voz do Diabo era a voz de um deus para eles, nosso coração entrou em um processo de rebelião.

Deus fala, as pessoas reconhecem ser a voz de Deus, mas vão em direção oposta. Como se a minha voz, ou a do tentador, ou a das outras pessoas fosse um deus para seus ouvidos, para seu coração.

Bem, depois do castigo e expulsão daquele jardim, homem e mulher não ficaram desamparados. Deus continuou a falar com eles, mas de uma forma diferente. Agora era preciso um mediador, e logo a sua Palavra escrita seria o veículo desta mediação. A fim de que as pessoas não ficassem tentando adivinhar o que Deus disse, ou, a fim de que cambistas não ficassem vendendo a direção de Deus por um preço melhor, ele fez com que todos a pudessem ler e ouvir e, assim, se lembrassem e praticassem seus ensinos.

Na época de Moisés, a Palavra de Deus deveria ser lida a cada sete anos (Dt 31.9-13). Homens, mulheres, crianças e até pessoas que não fossem da igreja e que estivessem por ali. Deveriam ouvir, aprender, e cumprir aquelas palavras escritas de Deus, mostrando assim que o temem.

Antes mesmo de haver rei sobre o povo de Israel, Deus já havia dado instrução para que o rei viesse a possuir uma cópia do livro de Deus. Para que? Para que lesse todos os dias, e assim aprendesse a temer a Deus e cumprisse o que está escrito ali. Por que o rei deveria fazer isso? Para que seu coração não achasse que ele era mais do que os outros, para que não se esquecesse que há um Senhor sobre o povo e sobre o rei (Dt 17.14-20).

Muito tempo depois de Moisés, Neemias registra este mesmo zelo em ouvir e entender a Palavra de Deus para então praticá-la (Ne 8.1-8). Havia um púlpito, havia a Bíblia, e havia pessoas para ensinar e explicar a Lei de Deus de modo que entendessem o que era lido.

No entremeio de livros do Antigo Testamento você vai encontrar diversos problemas. Entretanto, um costuma ser recorrente: uma geração que cresce e não conhece a Deus e nem o que ele fez (Jz 2.10; Ez; Dn 11.32-38; Os 6.6; Jr 19.4, 44.3; Is 45.5).

O que ocorreu no século 16 foi o transbordar de várias fervuras no correr da história, de homens e mulheres que estavam passando fome, à míngua, sem haver quem os ajudasse. As pessoas tentavam adivinhar se havia Deus; se havia, qual seria a sua vontade. Além disso, havia os profissionais que falavam em nome de Deus! Estariam certos? É assim mesmo?

Antes de prosseguir com o lá na época da reforma, comece a se perguntar agora o que você tem a ver com isso! Por que? Por causa de algumas coisas que fazemos.

1)      Não raro encontramos Bíblias largadas por aí;

2)      Um número expressivo de pessoas não lê diariamente a Bíblia, ou não a lê a cada sete anos, ou sequer a lê;

3)      Parece faltar convicção de que a voz do pastor ao explicar a Palavra de Deus é a voz de Deus que ouvimos, mesmo através de um instrumento imperfeito;

4)      Parece faltar convicção de que precisamos ouvir a voz de Deus explicada sempre. Se não fosse assim, todos os cultos estariam sempre repletos de pessoas. Mas, elas podem escolher hoje!

5)      A prática cristã do amor não é exatamente uma marca pela qual os cristãos são reconhecidos ultimamente.

Por isso, vamos procurar entender um pouco que livramento Deus deu lá no século 16, e perceber de que males Deus estava livrando o seu povo. Com isso em mente na caminhada, vá pensando no que Deus continua a poder fazer pela sua igreja hoje.

A REFORMA DISSE NÃO À IGNORÂNCIA E ÀS TREVAS ESPIRITUAIS

Você consegue imaginar um povo sem Bíblia para ler? Você consegue pensar na existência da Bíblia, mas no seu despreparo para conseguir lê-la? Saibam que até os sacerdotes muitas vezes sabiam apenas recitar a missa, sem ter a menor noção do que diziam. O bispo Hugh Latimer (1485-1555), queimado por causa de seus ensinos cristãos, uma vez fez a seguinte crítica: “Quando o mal exerce influência na igreja, sobem as velas e desce a pregação.” O bispo Hooper, queimado junto com Latimer, havia feito uma pesquisa interessante: dos 311 pastores de sua diocese, 168 não conseguiam repetir os 10 Mandamentos, 31 destes 168 não sabiam nem onde estavam escritos os 10 Mandamentos, 40 deles não puderam dizer onde estava a oração conhecida como Oração do Senhor, e 31 desses 40 nem sabiam quem teria sido o autor da Oração do Senhor!

O que é uma religião sem justificação, sem regeneração, sem santificação? O que é uma religião sem Cristo e a sua obra redentora? Não é á toa que muitos amam rituais, coisas com poder, pessoas com mais proximidade com Deus, lugares mais santos! Estes são os sepulcros caiados!

A Reforma foi um instrumento nas mãos de Deus para livrar das trevas espirituais e da ignorância.

A REFORMA DISSE NÃO À SUPERSTIÇÃO

A igreja Católica Romana, antes da Reforma, ensinava a seus membros a buscarem os benefícios das relíquias dos santos, ensinando-os assim a reverenciá-los. Calvino catalogou um “Inventário de Relíquias” que mostravam os truques mais baixos para manter o povo na superstição. As pessoas eram levadas a comprar pedaços de madeira da verdadeira cruz de Cristo, espinhos de sua cabeça, pregos, pontas de lança, pedaços de sua túnica, os ossos de Maria Madalena, a mão de Tiago, pedaços do pão que Jesus utilizou na Ceia, leite da virgem Maria, gotas do sangue de Cristo!

Muitas vezes as pessoas eram convencidas por sacerdotes a doarem suas terras para pagar por algum pecado. Assim acumularam muito dinheiro! O poder dos sacerdotes fazia avançar o seu apetite e não a fé cristã. A confissão deveria ser feita somente aos sacerdotes, e apenas estes poderiam aspergir água benta sobre coisas, animais ou pessoas. Sem a extrema unção alguém não seria salvo, e sem as missas as almas ficariam no purgatório. Estes eram os mediadores entre Deus e os homens! Uma indulgência de 1498, com a autoridade do Papa espanhol Alexandre VI, dizia o seguinte: “Absolvo pessoas da usura, roubo, assassinato, fornicação e de qualquer crime, exceto o de ferir um clérigo e conspirar contra um Papa”.

Alguém faminto come do lixo, mas não morre de fome. Pessoas sem o alimento da Palavra de Deus aceitam qualquer lixo que se lhes ofereça. Quem não crê em Deus, crê em qualquer coisa. É a junção da falta de instrução da Palavra de Deus, culpa dos sacerdotes, com o coração rebelde inclinado à idolatria das pessoas (culpa nossa).

A Reforma foi um instrumento nas mãos de Deus para livrar dessas superstições.

A REFORMA DISSE NÃO À IMORALIDADE

A vida religiosa antes da Reforma era um escândalo. A história está repleta de casos de papas, cardeais e bispos associados a mulheres, mulheres casadas, prostitutas e crianças. Ainda hoje não faltam restaurantes com o nome Monge, ou com nomes associados à Gula. Glutonaria, bebedeira e jogatina eram moedas corrente no meio eclesiástico anterior à Reforma. O sétimo mandamento parecia ser desconhecido. Vocês se lembram qual foi o grande pecado de Sodoma? Leia Ez 16.49:

“Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranqüilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado.”

A Reforma foi um instrumento nas mãos de Deus para denunciar esta imoralidade.

A REFORMA TROUXE A BÍBLIA DE VOLTA AO POVO

William Tyndale foi queimado em 1536 pelo pecado de traduzir a Bíblia para o inglês de sua época. Já antes, em 1519, seis homens e uma mulher haviam sido queimados na cidade de Coventry (Inglaterra) por ensinarem a seus filhos os 10 Mandamentos, a oração do Senhor e o Credo dos Apóstolos em inglês.

A tradução da Bíblia foi uma séria ameaça ao sistema da igreja católica pré-reforma. A Bíblia como única regra de fé e prática, e disponível na língua de cada povo era uma ameaça à tirania religiosa. Logo ficaria claro que muito do que havia sido chamado de religião, estava bem longe de qualquer justificativa baseada nas Escrituras.

A Reforma foi um instrumento nas mãos de Deus para restaurar sua voz escrita ao povo.

A REFORMA RESTAUROU A SIMPLICIDADE DO CULTO

Antes da Reforma os cristãos compareciam às igrejas como expectadores passivos e ignorantes. A liturgia era por elaborada em demasia, com todos os requintes de cores e instrumentos, além de incluir o Latim em meio às línguas locais. O uso do Latim ainda é um debate contemporâneo no meio católico. O uso do Latim no ritual da missa, alega-se, é para que o rito fique preservado ao ser descrito e verbalizado em uma língua morta. É como, por exemplo, o uso de expressões em Latim na área do direito. Em ambos os casos, avalia-se, o povo fica sem entender, mesmo que se queira evitar a dubiedade.

O ponto principal é que o destinatário da justiça não conhece essa linguagem e, ao que consta, ele tem ele o direito de entender o que disse o juiz a respeito do seu pedido, por exemplo. Assim, termos como autarquia anciliar (INSS), cártula chéquica (cheque), espeque ou supedâneo (com base no artigo), espórtula (gorjeta), digesto obreiro (CLT), ergástulo público (cadeia), peça increpatória (denúncia), Excelso Sodalício (STF), cônjuge supérstite (viúvo), alvazir (juiz de primeiro grau), testigo (testemunha), cônjuge virago (mulher do varão).

A Reforma foi um instrumento nas mãos de Deus para que o povo, e não apenas “um seu representante” o cultuasse em espírito e em verdade. O ensino do sacerdócio de todos os cristãos (1Pe 2.9) foi um duro golpe para “os chamados mediadores de Deus.”

O púlpito passou a ser mais importante do que o confessionário. As igrejas protestantes passaram a ter a mesa da Ceia com uma Biblia aberta à frente, onde seria o altar, ou um púlpito no centro demonstrando a centralidade da Palavra de Deus.

ALGUNS DESAFIOS

  • Antes, e até mesmo depois da Reforma, acreditava-se que a vida monástica e os votos de celibato eram formas de escapar do pecado e obter santificação. Alguns até achavam que além de agradar a Deus, ele lhes daria a salvação.Será que fugir das dificuldades que o dia-a-dia nos apresenta nos ajuda a ser mais santos? Adianta fugir do mundo? Adianta morar na igreja? Adianta inventar mil programações para manter as pessoas “na igreja”? O que é a igreja?
  • Devemos ser gratos pela Reforma que aconteceu no século 16. Muitos foram queimados para que hoje tivéssemos a Bíblia em nossas mãos, e assim pudéssemos ouvir a voz de Deus. Que herança você e eu estamos deixando para outras gerações (Sl 78.1-4)?
  • E quanto à Igreja Católica? Bem, temos vários pontos em comum. Devemos ser tolerantes e respeitosos, procurando apresentar nossos pontos de vista segundo a Bíblia que ambos possuímos. Entretanto, apesar da tolerância e do respeito, não podemos ainda aprovar o que fazem em algumas esferas. Como poderíamos nos irmanar a uma igreja que se considera infalível, a uma igreja que nunca se arrependeu de suas abominações pré-Reforma?
  • Por outro lado, não estamos os evangélicos sem conhecer a Palavra de Deus em nossa própria língua? Não somos muitos que sequer entendemos a língua portuguesa? Que dirá a Bíblia em português! Não nos tornamos tolerantes com a ignorância espiritual daqueles que acham a oração do pastor mais poderosa, ou a de uma irmã de oração? Não é verdade que a ignorância acerca do que diz a Palavra de Deus  há muito não nos incomoda? Não é incrível que hoje ainda se comprem a rosa de Sarom, o sal da paz, vidrinhos, patuás, e mais e mais bugigangas evangélicas?!? Não é verdade que pastores e ovelhas tem sido vencidos com certa facilidade pelo pecado falado no sétimo mandamento? Não é verdade que a simplicidade do culto está perdendo terreno de novo para uma nova roupa espiritual. Pessoas no lugar do altar, não explicando a Bíblia às pessoas, mas despertando seus apetites, suas emoções… achando que as sensações são o mover do Espírito. A arte É um bem criado por Deus, mas a arte que tem adentrado e complicado as liturgias são pobres, vazias de significado e despertam mais a sensualidade do que a adoração a Deus.

Se você entende a liturgia, os hinos que são cantados, as orações que são feitas em público, a leitura da Bíblia e a sua explicação, então lembre-se de que temos uma dívida de gratidão para com a Reforma. Mas, à luz do que vimos aqui, que reforma você pretende realizar em você a partir de agora? Especialmente, de que forma você pretende ouvir a voz de Deus?

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